terça-feira, 13 de novembro de 2012

Rocinha: mototaxistas aprovam "nova era", com regras e sem mesada de R$ 270 mil ao tráfico

Com UPP, carteira de habilitação e capacete são obrigatórios

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Bruno Rousso, do R7 | 13/11/2012 às 02h00

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Bruno Rousso/R7

Veja a galeria completaMototaxistas surgem em profusão no trânsito ainda confuso da Rocinha


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A ocupação da Rocinha, em novembro do ano passado, mudou o rumo de uma das principais atividades econômicas da mais notável comunidade da zona sul carioca. Com a polícia no lugar do tráfico, os mototaxistas ganharam - além da organização - a liberdade. Hoje, os 935 trabalhadores que passam o dia costurando o trânsito caótico da favela não precisam mais pagar a diária de R$ 13 ao poder paralelo, que ditou as regras durante décadas e lucrava, só com a exploração desse ramo, pelo menos R$ 270 mil ao mês. Segundo relatos de quem viveu os tempos de extorsão, o “pedágio” do tráfico só era “aliviado” aos domingos e feriados nacionais.

Sem criminosos desfilando com fuzis a tiracolo pelas ruas e vielas, os mototaxistas se formalizaram ao longo do último ano. Em agosto passado, pouco mais de um mês para inauguração da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), todos foram cadastrados e receberam coletes de identificação.

Na nova era, carteira de habilitação e capacete são itens obrigatórios para quem ganha a vida subindo e descendo as ladeiras da Rocinha. Antes, bastava ter uma moto e conhecer os rincões da favela. Era o caso de Márcio de Souza Sodré, de 28 anos.

— Sou nascido e criado aqui, então conheço tudo. Por isso, comecei a trabalhar com isso mesmo sem habilitação. Fiz por quatro anos. Com a polícia aí, tivemos que entrar na linha, ir para a autoescola. E isso foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Hoje é bem diferente. A gente não paga a taxa que tínhamos que pagar [diária de R$ 13], e esse dinheiro faz diferença.

Os policiais militares são responsáveis pelo controle e fiscalização das motos. E a linha é dura. Se alguém fugir à regra, perde a licença e faz andar uma fila de espera de mais de 200 pessoas – as 935 vagas foram delimitadas pela Prefeitura do Rio. Em três meses, estima-se que 80 coletes tenham trocado de dono. Muitos mototaxistas perderam o direito de trabalhar após serem presos por associação ao tráfico, estelionato e furto. Outros abdicaram do crachá, deixaram a comunidade e voltaram à terra natal.

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Marcelo Pereira, de 26 anos, é um dos que esperam na longa fila por um colete. Ele trabalhou no ramo de maneira informal desde 2007. Com a troca do poder do tráfico pela PM, precisou se enquadrar e aguarda a vez para voltar ao batente.

— Eu dependo disso. Por isso, fui tirar minha carteira [entre idas e vindas, levou quase um ano] e agora estou esperando a minha vez. É o meu trabalho, o que me sustenta há algum tempo.

Estatísticas levantadas pela UPP da Rocinha mostram que a vida de quem vive do moto-táxi tem melhorado. De acordo com as alterações de numeração de placas solicitadas desde agosto, mais de cem cadastrados compraram motos novas para trabalhar em um dos 14 pontos distribuídos pela comunidade.

Diante da satisfação pelas mudanças, somente um quesito ainda tira o sono dos mototaxistas: o preço da viagem. Segundo eles, o valor tabelado de R$ 2 não é alterado há quatro anos. Eduardo Fernandes, de 30 anos, que assim como a maioria dos colegas lucra mensalmente entre R$ 1.800 e R$ 2.400, diz que todos esperam um aumento de R$ 0,50 por trajeto. O preço é definido pelo comando da UPP local.

— Estamos lutando para aumentar a passagem. Aumenta o óleo, aumenta gasolina, aumenta manutenção, mas a nossa passagem continua a mesma. Vamos falar com a UPP para ver se deixam aumentar para R$ 2,50.

Mototaxistas passam o dia costurando carros, vans e ônibus pelas ladeiras da Rocinha (Foto: Bruno Rousso)

 

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