terça-feira, 29 de maio de 2012

A Década de Ações para a Segurança no Trânsito (2011-2020) e a queda no Imposto de Produtos Industrializados (IPI): sequelas para a sustentabilidade


As estatísticas ainda divergem e não são atualizadas, mas o Brasil é o 5º país no mundo onde são provocados mais acidentes de trânsito. Estimam-se que 40 mil pessoas morram por ano em decorrência de acidentes de trânsito, 3.333 por mês, 111 por dia, o que significa que a cada hora do dia 5 pessoas perdem a vida em acidentes de trânsito em algum lugar do país. E isso é muito. São números de guerra.

 Com uma frota estimada em aproximadamente 280 milhões de veículos, o governo gasta em torno de R$ 8 bilhões por ano com acidentes de trânsito incluindo resgate, hospitalização, cirurgias, reabilitação, indenizações, auxílios previdenciários e outros tipos de atendimentos.  

 Na Década de Ações da Segurança no Trânsito (2011-2020) a meta é de reduzir em 50% os acidentes, as mortes, as amputações, as sequelas visíveis e invisíveis dos acidentes de trânsito nas estradas brasileiras que provocam altos custos sociais para uma sociedade que mal consegue atender com o mínimo de dignidade da maioria dos usuários da saúde e da previdência social. Diante desses números a parte lúcida da sociedade fica se perguntando aonde tudo isso vai parar, principalmente depois da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre o preço dos carros que tem atraído motoristas e futuros motoristas às concessionárias como formigas ao açucareiro.

 Só na primeira semana de redução do IPI a procura por carros nas concessionárias e garagens subiu para 75% e só a Volkswagen que já comemorava a venda de 1,81 milhões de unidades em todo o mundo vai ter muito mais o que comemorar no mercado brasileiro. Em algumas cidades a procura que era por 800 veículos ao dia saltou para 2 mil visitas de interessados em comprar um carro novo.

 Ora, se com a redução do IPI o preço dos carros zero chegou a cair de R$ 2 mil a R$ 3,5 mil na loja, é óbvio que essa baixa no preço do carro zero impulsiona a desvalorização dos seminovos e ainda mais o barateamento dos carros ainda mais usados, aqueles com mais de 20 anos de uso. Muitos são carros mal conservados, sem manutenção preventiva, que rodam caindo aos pedaços na já precária e esgotada malha viária brasileira potencializando o risco de acidentes. Não precisa ir muito longe: o que esperar de um país em que o trânsito mata mais do que as guerras do Oriente Médio e vê a sua frota de veículos praticamente dobrar por conta do incentivo e das facilidades para a compra de carros que irão rodar numa malha viária já cheia de problemas, ruas esburacadas, sem pavimentação, sem ter para onde crescer?  Quantos quilômetros de engarrafamento teremos a mais? De quanto será a mais a descarga de poluentes na atmosfera? Quantos acidentes de trânsito a mais? Quantos motoristas estressados a mais? Esse custo anual de R$ 8 bilhões com acidentes de trânsito vai saltar para quanto? Será que ninguém está vendo o tamanho do problema presente e o que se projeta para o futuro?

 Se antes já tínhamos a dura e inglória missão de incentivar a mudança de comportamentos seguros e defensivos no trânsito, incentivar o uso da bicicleta como principal meio de transporte alternativo para diminuir a quantidade de carros nas ruas, os engarrafamentos, facilitar a fluidez do trânsito e a mobilidade humana, agora ficou mais complicado, mais difícil. Isso porque antes as cidades já não tinham espaços seguros para as bicicletas e inclusive as ciclofaixas já estão sendo pintadas nas calçadas como é o caso de Blumenau (SC) em que ciclistas e pedestres disputam o mesmo espaço em calçadas estreitas. Como compartilhar espaços entre todos no trânsito com tantos carros nas ruas?

 É isso que o governo brasileiro está fazendo como principal ação na Década das Ações de Segurança no Trânsito (2011-2020)? É este desserviço que está prestando à mobilidade e à circulação humana? Somos forçados a acreditar que se existe alguém lucrando com a venda de carros no país são as montadoras e concessionárias, pois a sociedade como um todo só perde com isso. Está ficando cada vez mais perigoso e insustentável trafegar pelas cidades brasileiras e mesmo que da noite para o dia retirem-se as facilidades de compra de carros no país as sequelas já serão enormes para administrar a frota que está aí.

 É, senhores educadores de trânsito, temos muito a fazer ainda. Nosso fardo está mais pesado, nossa luta precisa ainda de muito mais parceiros, nossas ações precisam de muito mais capilaridade para tentar sensibilizar os usuários do trânsito para a mudança de comportamentos, para a aprendizagem de comportamentos seguros e defensivos no trânsito. Se a meta antes era de reduzir 50% dos acidentes de trânsito de 2011 a 2020 com o aumento da frota esse percentual acolhe uma quantidade maior de acidentes e de vítimas do trânsito.  E exige de nós ainda muito mais esforço, empenho e seriedade no tratamento destas questões.  


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