segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Motociclistas abusam de roupas e atitudes inadequadas

 

Não é raro encontrar pelas ruas da cidade homens e mulheres guiando de bermudas, chinelos e sandálias

Basta um passeio pelas ruas para encontrar motociclistas, sobretudo mulheres, em cima das motos com roupas inadequadas para a proteção- Por: Emídio Marques

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Notícia publicada na edição de 06/11/2011 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2/3 do caderno Caderno de Domingo - o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Regina Helena Santos
regina.santos@jcruzeiro.com.br

A legislação de trânsito não pune, mas conduzir ou ocupar a garupa de uma moto sem as roupas adequadas pode provocar prejuízos muito piores que uma multa. Porém, ao contrário do uso do capacete - que é obrigatório e parte integrante da vestimenta da maior parte dos motociclistas - a utilização de calças, jaquetas ou camisas de manga longa e sapatos fechados, como botas ou tênis, não tem sido a escolha da maioria. A situação se torna ainda mais evidente com a entrada dos meses de calor e em se tratando das condutoras do sexo feminino, que comumente trocam a roupa que protege por sandálias, que deixam os pés expostos, saias e até salto alto.

A observação mostra o quanto o número de motociclistas de bermudas e roupas curtas são a maioria pelas ruas. Não existem estatísticas que apontem o quanto essa prática prejudica mais os ocupantes das motos no caso de uma queda ou colisão. Porém, o volume de acidentes envolvendo os veículos de duas rodas e o senso comum de que, protegida pelo tecido, a pele tende a sofrer menos como arranhões e escoriações, faz pensar que muitos machucados poderiam ser evitados. Somente de janeiro a setembro deste ano, das 10.887 ocorrências atendidas pelo Samu-192, 984 foram de acidentes de trânsito envolvendo motociclistas.

O número corresponde a 9,04% de total de socorros, mas chega a quase 40% se considerados apenas os casos de traumas. A maior parte das colisões, um total de 532, aconteceram entre veículos automotores e motos. Em segundo lugar aparecem as quedas, com 297 atendimentos, as principais ocorrências para as quais uma roupa adequada poderia ajudar. "A elegância e a vaidade não combinam com motocicleta. Mesmo num trajeto curto é preciso pensar na segurança", comentou Claudinei Leite Camargo, chefe de seção administrativo do Samu e motociclista.

Basta um passeio pelas ruas para encontrar motociclistas - especialmente mulheres - em cima das motos com roupas inadequadas para a proteção. "Eu cobro dela e não deixo usar shorts e sandália se vamos pegar a estrada", falou o vigilante Cristiano Rosa e Silva, 27 anos, referindo-se à esposa Juliana de Oliveira, 17 anos, que costuma levar na garupa. "Uma vez caí na estrada para Salto, quebrei o ombro em três lugares, mas não tive escoriações. Se não estivesse de jaqueta tinha ralado tudo." O casal, entretanto, admite que para os deslocamentos dentro da cidade costuma abrandar a regra. "A gente anda mais devagar", disse Cristiano.

Na manhã do último dia 27, a faxineira Claudisete da Silva Lima, 36 anos, embarcava na garupa da moto guiada pelo marido, o caminhoneiro Darci de Barros, 55 anos, vestindo bermuda. Mas ela disse saber bem dos riscos. "Outro dia um carro bateu na gente e pegou o meu joelho. Cortou e saiu muito sangue. Se estivesse de calça comprida não teria sido tão grave", reconhece. A justificativa para continuar de pernas de fora foi uma alergia. Darci, também de bermudas, lembrou do filho, que se recupera de um grave acidente de moto. "Ele ainda está com a traqueostomia. Bateu num cruzamento, teve ferimentos graves, mas estava de calça e jaqueta. Não teve nenhum "ralado". As enfermeiras nem acreditavam que tinha sido de moto."

Já para algumas mulheres, mais vale a elegância e o conforto. "É mais prático e rápido vir com a roupa que já vou ficar. O trajeto é curto. E, se tiver uma queda, vai machucar de qualquer jeito. Não dá para dizer que é a roupa que vai evitar um acidente", acredita a depiladora Maria Aparecida Medeiros, 30 anos. Para ela, muita roupa pode até atrapalhar. "Quando chegam para o socorro, eles rasgam tudo", falou, ao chegar para fazer compras no centro da cidade, à bordo de sua moto vestindo saia, blusa cavada e sandálias nos pés.

Não há obrigação

A falta de uma regulamentação sobre o uso de roupas apropriadas por motociclistas também contribui para que os condutores não se preocupem muito com a questão. "A única coisa que a legislação obriga é o uso de um calçado fixo no pé, que vale tanto para as motos como para os carros. Até os saltos altos não são proibidos, mas a gente recomenda que não use", explicou Ivone do Ó, instrutora de um Centro de Formação de Condutores. Segundo o artigo 244 do Código de Trânsito Brasileiro, é proibido conduzir motocicleta, motoneta e ciclomotor sem usar capacete de segurança com viseira ou óculos de proteção e vestuário de acordo com as normas e especificações aprovadas pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Porém, ao contrário das recomendações sobre o capacete, a vestimenta ainda não foi regulamentada pelo órgão.

Nas autoescolas, os instrutores tentam alertar os futuros motoristas sobre os perigos da pouca roupa quando se guia uma moto. Porém, nem sempre são atendidos. "Eles são avisados, na aula teórica, de que não devem andar com bermudas, chinelos ou sandálias. Mas depois chegam para fazer a aula prática vestidos desse jeito. Muitas vezes, temos que cancelar o treino", contou Marinaldo Gomes Ferreira, o Robinho, que trabalha como instrutor há sete anos. Um dos argumentos que ele usa para tentar convencer seus alunos do quanto o risco de machucados aumenta com roupas curtas é a temperatura do asfalto. "Numa queda, a pele queima em contato com o asfalto quente."

 

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